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Objectivos | Área de intervenção | Metodologia | Resultados

Metodologia

A metodologia utilizada segue uma sequência determinada, em que numa primeira fase é realizada a selecção dos criadores de gado participantes e a dos cachorros a integrar, à qual se segue o acompanhamento dos cães integrados e a prestação de apoio ao criador de gado durante o desenvolvimento dos cães. Por fim, é realizada a avaliação da eficácia dos cães adultos.

Selecção dos criadores de gado

Após uma selecção inicial dos rebanhos ou manadas, baseada no montante dos prejuízos resultantes de ataques de predadores, é realizada uma entrevista ao criador de gado. Nesta entrevista pretende-se avaliar o seu grau de motivação para participar e cumprir as indicações dadas para a correcta educação dos cães, bem como a existência de condições adequadas à integração destes, nomeadamente a segurança dos estábulos (estrutura e localização), a presença de outros cães com o gado e a ausência de graves riscos de mortalidade para os animais a integrar (veneno, estradas com muito tráfego).

É registado o tipo de maneio do gado, as condições higieno-sanitárias em que é mantido e o tipo de protecção existente, para minimizar as alterações necessárias na rotina diária do criador de gado após a introdução do cachorro, facilitando a sua educação e manutenção. É dada especial importância à motivação do criador de gado, uma vez que é um factor muito influente na qualidade da educação dos cães e consequentemente no seu desempenho. Em algumas situações são os próprios criadores de gado que solicitam cães, após terem tido conhecimento da eficácia dos cães já entregues pelo Grupo Lobo.

Outro aspecto considerado foi a existência, no rebanho ou manada ou em rebanhos ou manadas da mesma aldeia ou aldeias vizinhas, de outros cães de gado integrados pela equipa do Grupo Lobo. Isto permite fomentar a constituição de casais de exemplares da mesma raça e a produção de cachorros com qualidade, e reforçar o número de cães existentes, mantendo um núcleo viável de exemplares da raça. Assim será possível promover uma efectiva utilização e expansão do uso dos cães de gado a longo prazo.

Aquando da integração do cachorro os criadores de gado recebem um folheto explicativo sobre o comportamento, a educação e as raças nacionais de cães de gado. Neste folheto são ainda disponibilizados os contactos das entidades participantes na acção. É ainda entregue um outro folheto sobre os cuidados básicos sanitários e maneio dos cães de gado, contendo também outro tipo de informação útil, nomeadamente, sobre a identificação dos cães e a legislação existente.

Para assegurar o cumprimento das recomendações relativas à educação e manutenção dos cães, por parte dos criadores de gado, e deste modo potenciar a eficiência dos cães integrados, procede-se à assinatura de um protocolo de colaboração entre o Grupo Lobo e o criador. Neste protocolo são estipuladas as responsabilidades das duas partes, bem como os procedimentos a seguir para a educação, manutenção e reprodução do cão.

Selecção dos cães

Na selecção dos progenitores é dada preferência a animais utilizados ainda na sua função tradicional, pois aumenta a probabilidade de se obter um bom cão de gado. A informação comportamental é obtida através de um inquérito ao proprietário sobre o comportamento do cão em situações específicas, visando avaliar diferentes aspectos comportamentais e, sempre que possível, complementada com a observação do cão durante o período de pastoreio do rebanho.

As preferências comportamentais e morfológicas dos cães de gado utilizados como animais de companhia, podem diferir dos comportamentos inicialmente seleccionados e fundamentais para que uma raça seja funcional. Assim, existe o risco de animais provenientes de linhagens não utilizadas em trabalho há várias gerações não exibirem os comportamentos adequados à protecção dos rebanhos (Willis, 1995). Em virtude de não existirem provas de trabalho para as raças de cães de gado, a sua selecção é grandemente orientada pelas classificações obtidas nas exposições de beleza.

Após a selecção dos progenitores, procede-se à escolha das ninhadas e dos cachorros. De um modo geral são seleccionados poucos cachorros por ninhada, de forma a obter exemplares descendentes de diferentes linhagens e assim aumentar a diversidade genética dos núcleos de cães das duas raças.

A selecção dos cachorros é efectuada após o desmame (que acontece entre 1 e 1,5 meses de idade) e baseia-se numa avaliação física e comportamental. Devem ser excluídos cachorros em má condição física ou sanitária, que apresentem más formações (e.g. hérnias, prognatismo) ou características que difiram dos padrões da raça. Devem ser seleccionados cachorros não muito tímidos ou agressivos. Animais agressivos poderão atacar mais facilmente outros animais ou pessoas, e animais muito tímidos serão mais difíceis de educar correctamente, sendo menor a probabilidade de sucesso (Green & Woodruff, 1993).

A selecção dos cachorros é sempre delicada uma vez que é difícil prever exactamente como se irão desenvolver. Aos 1-2 meses ainda não estão definidas muitas das características morfológicas e alguns padrões comportamentais ainda não surgiram. Além disso, é preciso ter em conta que os padrões comportamentais resultam da interacção, que ocorre durante o desenvolvimento, entre factores ambientais e genéticos (Coppinger & Coppinger, 2001).

Raças utilizadas

Foram integrados exemplares pertencentes a 3 raças nacionais de cães de gado: o Cão de Castro Laboreiro, o Cão da Serra da Estrela, nas variedades de pêlo curto e pêlo comprido, e o Rafeiro do Alentejo.

O critério de integração dos exemplares das raças utilizadas procura respeitar a distribuição histórica destas e as características ambientais dos seus solares de origem. Pretende também promover a formação de núcleos de uma mesma raça, facilitando assim o acasalamento entre indivíduos e contrariando a miscigenação, um dos principais perigos que se colocam à sua conservação.

Os exemplares da raça Cão de Castro Laboreiro são integrados nas regiões montanhosas do distrito de Vila Real, que possui características muito semelhantes às do solar de origem da raça, nomeadamente as condições ambientais e as raças de gado existentes. Os exemplares da raça Cão Serra da Estrela são maioritariamente integrados na região Centro do País, estando mais próximos do solar de origem da raça, a Serra da Estrela. Os exemplares da raça Rafeiro do Alentejo foram integrados no Distrito de Castelo Branco, estando próximos da região onde tiveram origem, o Alentejo.

(Consultar mapa com distribuição dos cães de gado)

Integração do cão no gado

Os cachorros devem ser integrados imediatamente logo após o desmame, mas só depois de terem recebido as primeiras vacinas. É nesta fase do seu desenvolvimento, denominada período de socialização, que se estende até cerca dos 4 meses de idade, que os cachorros mais facilmente estabelecem laços sociais com outros indivíduos - neste caso os animais do rebanho (Coppinger & Schneider, 1995; Coppinger & Coppinger, 2001). É esta socialização que vai permitir aos cães identificarem o gado como a sua “família”, acompanhando-o sempre nas suas deslocações e protegendo-o quando é necessário.

Em algumas situações pode ser necessário proceder a pequenas adaptações do estábulo para criar as condições adequadas à integração do cachorro, nomeadamente: tapar todos os sítios por onde ele possa fugir e criar um local de refúgio para o cachorro, particularmente quando os animais são mais agressivos (raças mais agressivas ou animais que não estão habituados à presença de cães na corte ou que pariram há pouco tempo).

O local de refúgio é uma estrutura muito simples, podendo consistir apenas em algumas tábuas firmemente encostadas contra a parede, num dos cantos do estábulo, permitindo ao cachorro entrar e sair facilmente mas não ao gado. A rápida habituação do cachorro aos animais, aprendendo a evitar situações de agressão, e também destes ao cachorro, faz com que após alguns dias o refúgio deixe de ser utilizado.

Desde a introdução no rebanho ou manada, o cachorro deverá ser sempre mantido junto dos animais que irá proteger quando for adulto. O estabelecimento de laços sociais é promovido pela proximidade obrigatória, pelo que o cachorro deve ser mantido sempre em contacto com o gado, sem possibilidade de escapar. A impossibilidade de sair favorece não só a socialização, como minimiza a tendência para fugir quando o cachorro tiver maior liberdade (Green & Woodruff, 1993).

O contacto com outros cães é desaconselhado e a interacção com pessoas deve ser reduzida para que os laços sociais entre o cão e o gado sejam fortes. No entanto, é importante que o cão tenha algum contacto com o proprietário e a sua família para que possa ser seguro e manuseado sempre que necessário, nomeadamente durante os exames e as intervenções veterinárias.

Habituação do gado ao cão

A associação entre os cães e o gado requer também habituação por parte dos animais do rebanho. É importante dar a todos os elementos do rebanho a oportunidade de conhecer o cachorro, principalmente se não estão familiarizados com a presença de cães de gado.

Sempre que possível, os cachorros devem ser colocados com animais jovens, dado que estes são menos agressivos que os adultos, e aceitam mais facilmente a presença do cão. Para além disso, os animais juvenis que crescem em companhia de um cão, evidenciam também, quando adultos, laços sociais para com o cão, facilitando o seu papel de guardião (Lorenz & Coppinger, 1986).

Primeira saída do cão com o gado

Antes de começarem acompanhar o gado, os cachorros devem ser mantidos em permanência no estábulo durante um período de habituação que pode variar entre as 2 e as 7 semanas, dependendo do desenvolvimento comportamental do cão e da habituação pelo gado.

Este período pretende fomentar o estabelecimento de laços sociais com os animais do rebanho e a habituação destes à presença dos cães, bem como permitir ao cachorro atingir a capacidade física para conseguir acompanhar o gado durante o período integral de pastoreio.

Em locais onde a pressão dos predadores é grande, o cachorro só deverá começar a acompanhar o gado mais tarde, depois dos 6-8 meses de idade, quando já tiver mais capacidade para escapar e se defender.

Acompanhamento do desenvolvimento

Para controlar o desenvolvimento físico e comportamental dos cães, são efectuadas visitas regulares (geralmente mensais). Nestas visitas os cães são examinados, sendo verificada a sua condição física e estado sanitário. Estes exames são complementados com inquéritos ao proprietário sobre o estado de saúde do cão ou a exibição de comportamentos anormais que possam ser indicadores de doença.

São ainda efectuadas observações comportamentais do cão com o gado (na pastagem ou no estábulo), para avaliar o seu comportamento. Estes dados são também complementados através de questões ao proprietário, sobre o comportamento do cão em situações específicas, que permitem avaliar os diferentes aspectos comportamentais.

As informações obtidas são bastante importantes, principalmente durante a fase juvenil do cão, pois qualquer comportamento inadequado deve ser imediatamente repreendido para evitar ser reforçado, o que tornaria mais difícil a sua correcção.

Alimentação e cuidados veterinários

Para que os cães possam ter um bom desempenho têm de estar em boa condição física e sanitária. Para além dos cuidados veterinários, é importante dar ao cão um alimento que seja adequado à sua idade, estado fisiológico e ao esforço que realiza.

A todos os cães entregues, é fornecida uma alimentação adequada (ração) durante a fase de crescimento e até atingirem a maturidade. Os cães devem ser sempre alimentados no estábulo, o que contribui para que associem este local e a presença do gado a estímulos positivos. Para evitar que o alimento seja consumido pelos animais do rebanho, deve colocar-se a gamela num local a que o gado não tenha acesso, nomeadamente no local de refúgio construído para o cachorro, sendo a água colocada numa área comum ao gado.

São também seguidas as recomendações veterinárias no que diz respeito à profilaxia veterinária, nomeadamente a primovacinação dos cachorros e a vacinação anual dos cães adultos, e às desparasitações internas e externas. Se possível até aos 2 anos, são também assegurados todos os restantes cuidados veterinários aos cães entregues.

 

Para mais informações consultar o Manual de criação